Malcolm X, 1992.

Spike Lee.



 “Forjar leis de ferro para você mesmo, nem que seja

para obedecer ou desobedecê-las com dificuldade” - Robert Bresson



"(...) Não é apenas aquele que, percebendo o escuro do presente, nele apreende a resoluta luz; é também aquele que, dividindo e interpolando o tempo, está à altura de transformá-lo e de colocá-lo em relação com os outros tempos, de nele ler de modo inédito a história, de “citá-la” segundo uma necessidade que não provém de maneira nenhuma do seu arbítrio, mas de uma exigência à qual ele não pode responder.” - Giorgio Agamben.


Malcolm é um exemplo de como a substância é levada as últimas instâncias da representação e toda o matiz horizontal das opções geradas com suas vontades. Sua jornada de desenvolvimento pessoal, e espiritual nos deixará a isca para entendermos melhor essa prisão dada pela substância, da ideia contida na matéria ou pela matéria que fará com que a vida possa se manter, tanto em seu lado positivo quanto negativo. O capitalismo deixa assim de ser o empecilho para que essa evolução de caráter aconteça, para que em sua conclusão, em sua finitude, por mais que a propagação dos limites seja feita, é realizada como uma contradição. Digo, se o movimento se da por essa substancia abstrata de qualquer forma que seja, tanto essencial e inimaginável, quanto significante e utilitarista, ela se da principalmente como uma dicotomia que não pode ser resolvida, pois impede em sua realização que algo de diferente possa ocorrer. A produção de subjetividade é evidente, Malcolm é único, produz propriedade, (não me entendam tão mal, marxistas) mas também desarrolha toda a sorte de malignidade no tecido social. De tecido, como o que reveste as relações, a cultura, de como falo e me apresento ao outro, como identidade, como in-significância, e não como possibilidade de diferença.  Não porque nosso herói aqui estava errado, mas por uma questão maior, a qual a imanência não é capaz de seduzir, e nem cooptar, é algo que fica para memória resolver junto ao Tempo. Essa é a magia do cinema, de produzir obras além dos espectros de festivais, feitos para certos grupos, pois mais que a lógica do espaço-tempo a trancafie, o tempo aqui minúsculo e adjunto, locução em logaritmo. Ao que tudo indica por mais que as lagrimas corram em seu fim, pela identificação, o que fica é esse estado parapsicológico de que fomos ludibriados, sendo o espectador mais atento obviamente. Da peça aqui como propagação de uma antevisão, de algo que é premonitório, mas não pela vontade do próprio cineasta, mas como obra que por mais cínica que nos aparente, possui em seu cerne toda uma vontade oculta por Esse Tempo mais cósmico. O pronome que referência assim esse corpo só será a capaz de produzir singularidade quando prisioneiro, quando limitado pela matéria, julgado pelo Outro. Por isso ser uma obra complicada nesse sentido somático, onde a imagem mais parece uma conjunção aditiva e que subordina um entender mais ulterior do que pode ser a substância aprisionada pelo corpo e moldada por ele para ganhar sentido. A montagem é a principal ferramenta do cinema que fará esse papel de conduzir a lógica, enquanto a organização de cada plano nos da a quantidade cabível de forças, através de suas angulações e da posição e movimentos dos corpos no quadro, é a montagem que fará esse sentido: para onde vão as energias? Pergunta consequentemente econômica carregada de história também, pois não se sabe para onde as coisas vão sem saber de onde estão vindo, das causas, do ato e da sua potência. O problema aqui esta justamente no seu poder da edição entre os planos que insiste com um aporte ideológico e de mostrar didaticamente a linearidade da ontologia, sem um niilismo deontológico. O poderio se faz como algo que premedita e nos enjaula não por uma teologia da libertação, mas pela psicosoma pois-moderna, de conclusões e afirmações em constâncias. Essa tentativa de abertura para um momento a-histórico em seu fim, junto a imagens de arquivo, e com a própria simulação arquivística durante a projeção nos da uma obra que esta mais interessada construção da subjetividade do que como essa subjetividade esta intrinsecamente coordenada a memória, e não somente por algo psicossomático ou metempsicótico e cíclico, mas também por duplas negações em absurdo, na criação de paradoxos que nos entregam o tal místico buscado pelo próprio homem a quem estamos nos referindo, e não da sua imagem sendo propagada e subordinada por uma mão de ferro, mão essa que reflete um diário de aforisma cinematografo, do trabalho como energia invisível e não palpável e moldável ao bem entender, contudo o mais pelo ceticismo, pelo fim da arte na fenomenologia do espirito.


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